Um dia, estava o Burro, saboreando a erva fresquinha, recheada de mimosas, quando o Ganso disparou uma vez mais em alvoraçada correria e num alarido tal que o pobre Burro até se engasgou... Depois do primeiro sobressalto e já com a garganta limpa, questionava-se o Burro sobre o porquê de tal confusão!?Ao fundo via o Ganso, junto à velha cerca meio arruinada, que já tinham sido saudáveis ramos de pinho, onde o aço deixou marcas, batendo as asas e grasnando, pulando doido de raiva.
O vento soprava ligeiro, trazendo os primeiros odores de Primavera, as flores, começavam a despontar, o Sol brilhava... porque raio, estaria o Ganso assim?
Indolentemente, o Burro aproximou-se e porque era mais alto, pode ver para além da cerca envolta na erva alta e dos espinhos que entretanto cresceram. Pelo velho caminho já coberto de erva, avançavam em coluna, carroças engalanadas e de cores garridas, o vento trazia já o som de sinos e badalos, alguns toques de flauta e cheiros... Odores picantes, estranhos para o Burro, algo diferente e indiferente para o Ganso que não parara ainda e acusava já a rouquidão num grasnar desafinado.
Cada vez mais perto, o Burro começava agora a ver por entre as árvores, as figuras de homens e mulheres acompanhando a coluna e criânças que corriam e gritavam, ao que parecia, divertidas.
O Burro, tentou em vão, acalmar o Ganso, mas de nada valeu, ele continuava igual a si mesmo.
Foi então que o Ganso, num esforço supremo e num bater de asas mais vigoroso, subindo no ar, acima da cerca, conseguiu ver...
Homens!!!!
Foi demais para ele. Correu, bateu as asas com um tal frenesim que até as folhas das árvores estremeceram, de uma ponta à outra da Quinta ele não parava. De repente como que numa súplica, ficou em frente ao Burro, batendo as asas e saltitando sobre cada pata, que por momentos o Burro, pensou ter vislumbrado uma lágrima. Seria isso??...
O Ganso começou então a correr para o seu refúgio no velho cais e lá ficou, súbitamente calado, ... Foi nessa altura que o Burro, presentiu algo nas suas costas e sacudindo os quartos traseiros, levantando-os, encolhendo as patas, os cascos selvagens retesados, disparou tal coice, que se em algo acertasse, de certeza que em dois o partia. E zurrava e coiceva uma e outra vez... (cont.)



