
Todas as criânças, gostam de comboios.
Têm uma magia única que como um imã, atrai os seus olhos inocentes.
O som que emanam como o fumo nas máquinas de antigamente, a vida que tal como ontem, hoje também transportam de e para as cidades. São unicos.
Como são unicos os homens e mulheres que os fazem rolar. Que deixam as suas vidas e das familias entregues ao compasso dos hórários dos dias e das noites. Hoje muito melhorou nessas vidas. Há trinta anos atrás os homens dos comboios conduziam-nos por amor e com sacrificio desse seu amor. Hoje como de uma morte anunciada, antecipam-se velórios e encomendam-se flores para o adeus...
Depois da revolução de Abril, todos acreditaram numa nova era e na evolução da sociedade portuguesa. Hoje, ouço demasiadas vezes, creio, o nome de Salazar, de ditaduras e mais grave ainda me parece, aqueles que viveram antes, referirem que, "nem antes era assim..."
Como maquinista dos tempos modernos, gostava de ver os comboios a serem um motor da sociedade portuguesa e com o reconhecimento da sociedade, porque se nós precisamos dela, também ela sendo parte integrante da vida dos comboios, depende do seu movimento e da evolução que se espera para o futuro...
Sinto contudo que mais uma vez o meu pais me vai estrangular em ilusões e descontentamentos.
Muitos esperam um TGV que irá modernizar o pais... Acho que é uma tonteria absurda. As infraestruturas de que dispomos estão subaproveitadas e cheias de "buracos" económicos e estruturais e agora vamos ter comboios rápidos a fazer serviço porta a porta...?!
Apostam na evolução estratégica, mas sem estratégia para o pais e para as pessoas. A classe trabalhadora, perde previlégios sociais todos os dias a bem da sociedade??!!!!
Como pois, pode uma sociedade ansiar evoluir se a esvaziam de objectivos. Se essa sociedade retira o direito de revindicar, se as instituições sindicais estão profanadas pelo poder politico e cada vez têm menos intervenção social, para onde vamos...?
Os maquinistas hoje lutam para não lhes retirarem o que em tempos lhes foi dado como um direito adquirido em função do seu trabalho, provavelmente amanhã, lutaram pelo trabalho como um direito...
Resta-me perguntar ao meu pais, na pessoa daqueles que o governam, que fazes por mim, que eu não tenha feito já por ti...
Resta-me lutar com o que ainda tenho, mesmo sabendo que são parcas as possibilidades de me ouvirem.
Espero que as criânças continuem a gostar de comboios, porque os comboios cada vez gostam menos delas.