sexta-feira, novembro 17, 2006

À conversa com...

Olhos nos olhos, comteplavamo-nos como iguais. Não o eramos de todo. Contudo algo havia que nos igualava e colocava num mesmo patatamar. A minha amiga, tem uma tremenda ligeireza para guiar a sua vida. Num unico dia tem de constituir familia e fa-lo. Restam-lhe apenas dois de vida e tudo tem de ficar determinado, e fica. Quando voa, a sua forma aeródinamica permite que o faça de uma forma unica, com uma delicadeza tal que espanta e alucina, permite ver o mundo de uma perspectiva, também unica, tal como o seu próprio mundo: - unico.
Quando por momentos pára, como que por magia no cimo de um arbusto, a sua postura parece de reza, de oração, pausa breve de recolhimento e tudo recomeça, bruscamente.
Olhava para as minhas mãos, quando aconteceu.
Pousou de repente e ali ficou, talvez como eu observando aquela flor de algodão bravo, que o vento havia depositado em mim...
Falamos do Vento e do Sol, das sombras, da água do rio e da familia, dos amigos.
Do trabalho não quisemos conversar, não havia nada em comum, nessa área, eu tenho anos de vida para o fazer, ela apenas alguns dias, eu conduzo comboios, ela apenas cumpre o ritual da vida, coisa que eu não farei e ela sabe.
Bastou olhar os meus olhos e saber o que me deixa triste, vazio. Sabe que o trabalho me cansa, pelas horas mal dormidas, pelos outros que comigo trabalham e não parece, pessoas que se refugiam na sombra do seu destino, esperando que outros lutem por si, lutas remotas e longinquas, que se não espera, tragam mudanças, ideais desvanecidos pelo tempo e pelo ódio do ser... Não quissemos falar de trabalho, pois isso implicava que lhe explicasse como tudo funciona e tal coisa levaria outra vida e eu não sei se a encontrarei por cá mais tarde. Teria de lhe explicar o que são comboios e como se aplica o regulamento; vários, diga-se; o bloco orientavel que assusta por vezes; o que é um processo disciplinar, hoje seria mais facil de entender por haver tantos... enfim outra coisa como a clausula, uma amiga do peito, tive de lhe fazer perceber como era bom ser amigo do peito, e como está para breve a sua partida para o Além. Chorou. Chorámos. Ela quando entendeu o que é perder alguém e eu por já ter perdido...
Sem querer falar de trabalho, ainda lhe fiz entender que há outros colegas de profissão que conseguem estar pior do que eu, mesmo quando lhe expliquei que conseguiam ganhar mais, bom também trabalham mais horas por isso faz sentido, mas foi quando lhe falei de outros, ainda que já tendo passado por tudo isto, e nesta altura já conversavamos de outras coisas; que ela se revoltou e as lágrimas, como o rio que antes, juntos observávamos, transbordou... outros que já tendo passado por tudo isto, são hoje o nosso maior tormento e note-se que, o tormento não é sofrer mas pensar... pensar em tanto sem querer falar do nosso trabalho, criou silêncios que não desejavamos e foi quando o algodão bravo caiu da minha mão, que em sobressalto nos dissemos adeus, ela rápida se elevou nos ares e eu fiquei só, pensando como tinha sido bom partilhar aquele momento em que não pensei em nada mais, senão querer ser assim como a minha amiga libelinha, que conheci num dia de Outono depois que sai do trabalho...livre, só isso, livre.

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